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| Foto: Ramon Moreira |
Antes mesmo que a maior parte dos amigos soubesse o que estava acontecendo, ela saía em busca de tecidos e brilhos e cores.
Circulava por lojas e mais lojas em busca da matéria prima perfeita para a materialização das ideias.
Semanalmente, viajava nas alturas em busca de novas conquistas e, por vezes, as conseguia. De degrau em degrau foi adquirindo confiança para os dias mais esperados do ano.
A vida foi corrida até ali: trabalho, casa, treinos, costuras, linhas, agulhas, pedidos, negativas... Sua sala era o próprio barracão de escola de samba e até mesmo seu gato parecia querer um traje especial.
Mergulhou de cabeça na construção de todos os seus personagens, seus e dos amigos que construiria. Virou noites, fez e refez trabalhos, correu contra o tempo.
Mas chegou o carnaval... E ela desfilou sim!
Brincou de ser palhaça na avenida e na vida, riu dos tropeços, caiu de amores e morreu de raiva. Mas sobreviveu, deixou pra lá. Era apenas o primeiro dia dos melhores que poderia ter.
Não só de costurar vivia; trabalhou também na sua válvula alcoólica de escape. Bebeu, entornou, virou. Manteve a classe, mas perdeu a pose: libertou-se das amarras que há tempos lhe impediam de ser quem é, moleca, livre, risonha, solta. Parou de morder a boca. Bom sinal!
Foi pirata conquistando mares pelas ruas do Rio, domou o Museu e a Marina da Glória. Gritou para que tocassem Raul (o Seixas!) e tocaram. Pulou, comeu, correu e andou. Andou como andarilha perdida e sem rumo, mas sempre encontrava seu caminho de volta para casa e para o descanso merecido.
Pra não dizer que não ousou em suas fantasias, foi mulher fruta: mostrou ao mundo que abacaxis podem ser estranhos por fora, um tanto arredios e difíceis de lidar, e para alguns poucos merecedores deixou transparecer que no fundo, no fundo, são frutas doces por dentro. Às vezes ácidas, mas quase sempre doces.
Subiu na vida, como esperou por tanto tempo. Entre improvisos e ajustes de última hora, subiu ao Olimpo e virou deusa. Aquela, do amor e da beleza, pisando (ou flutuando, no alto de seus 70 cm adicionais) sobre as flores. Esqueceu os corações, a purpurina, o confete, as pétalas, o espelho, a concha e tudo mais que poderia indicar quem era, mas ainda assim, vestiu-se de deusa. AFROdite, em homenagem às raízes.
O dia de alegria e magia sem fim se foi. Trouxe o cansaço consigo, mas as lembranças daquele vôo alto não queriam lhe abandonar. Entregou-se à preguiça, se deixou levar por Morfeu. Sobraram as cinzas.
Não rodou com outras mulheres, não guerreou com purpurina nem percorreu novamente as ruas do Rio lá das alturas. Mas nada disso importa. Viu, pelos olhos dos amigos, a felicidade que aqueles poucos dias proporcionaram e viu a alegria refletir em si mesma. Sorriu, sozinha, e começou a planejar o futuro.
O ano finalmente começara.

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